Os terremotos que atingiram a Venezuela no dia 24 de junho desencadearam uma mobilização inédita do setor privado no país, com empresas de construção, logística, tecnologia e agroindústria atuando de forma coordenada para suprir deficiências na resposta estatal ao desastre. A região de La Guaira, uma das mais afetadas pelos tremores, recebe equipamentos pesados provenientes de cidades industriais localizadas a mais de 460 quilômetros de distância, enquanto famílias ainda buscam parentes desaparecidos nos escombros.
As câmaras da construção civil e do petróleo lideram esforços conjuntos para a instalação de abrigos temporários com capacidade entre 2.000 e 10 mil pessoas, além de hospitais de campanha. A iniciativa conta com apoio financeiro do banco regional de desenvolvimento CAF, que disponibilizou um fundo inicial de 1 milhão de dólares para os trabalhos. “Este é um projeto que contará com a CAF para garantir sua sustentabilidade financeira, já que exige confiabilidade de longo prazo e um esforço colaborativo”, afirmou Enrique Novoa, presidente da Câmara Venezuelana do Petróleo, em declaração reproduzida pela Bloomberg. “A questão-chave é o tempo. Precisamos ter soluções prontas o mais rápido possível”, acrescentou Gustavo García Carrasquero, presidente da entidade representativa do setor de construção civil.
Empresas estrangeiras e plataformas digitais também integraram a mobilização. A Starlink oferece acesso gratuito à internet até 25 de julho nas áreas com infraestrutura danificada. A Avianca e a American Airlines lançaram campanhas de doação de milhas por seus programas de fidelidade, enquanto a organização sem fins lucrativos do Airbnb disponibiliza hospedagem emergencial gratuita a socorristas. A gigante alimentícia Empresas Polar forneceu 26 mil caixas de alimentos básicos e distribui diariamente 120 mil litros de água engarrafada, segundo informações da Bloomberg.
O nível de articulação entre iniciativa privada e órgãos estatais observado na crise atual representa uma mudança estrutural nas relações entre os dois setores, segundo Luis Vicente León, presidente da consultoria venezuelana Datanalisis. “O setor privado costuma ser muito ativo na participação social e no apoio às respostas a desastres ou crises”, disse León, acrescentando que o grau de coordenação atual “teria sido impensável durante o período de conflito entre os setores público e privado” nos últimos anos do governo Chávez. León atribuiu essa aproximação a transformações ocorridas nos últimos três anos, quando o governo passou a depender mais das empresas para assegurar produção e abastecimento após a crise macroeconômica, incluindo liberalização de preços e maior diálogo com associações empresariais.
A cautela, no entanto, persiste entre parte dos empresários. Um proprietário de empresa de materiais de construção em Puerto Ordaz, polo da indústria pesada a mais de 650 quilômetros de La Guaira, optou pelo anonimato ao organizar o envio de um guindaste para as operações de resgate. Segundo ele, relatado pela Bloomberg, o governo pode rejeitar que empresas privadas recebam reconhecimento por um esforço de socorro que evidencia as limitações da atuação estatal. Além da resposta emergencial, o setor privado deverá ter papel ainda mais relevante na reconstrução do país, projetou León.