Uma nova rodada de negociações indiretas entre Estados Unidos e Irã foi encerrada nesta quarta-feira (1º) em Doha, no Catar, sem que as partes apresentassem sinais concretos de avanço em direção a um acordo duradouro. Segundo fontes familiarizadas com as discussões, os dois dias de conversas foram de natureza técnica e se concentraram em dois pontos previstos no memorando de junho: a normalização do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz e o desbloqueio de fundos iranianos retidos no exterior.

O Ministério das Relações Exteriores do Catar afirmou, em publicação na rede social X, que as negociações produziram “avanços positivos” em temas relacionados ao memorando de cessar-fogo e que aproveitaram resultados de uma cúpula realizada anteriormente na Suíça. A próxima rodada de conversas está prevista para após os funerais do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, cujo sepultamento está agendado para 9 de julho, conforme informou a chancelaria catariana.

Em Washington, o presidente Donald Trump afirmou aos repórteres que os dois países avançavam em discussões sobre possíveis limites ao programa nuclear iraniano, declarando que “a desnuclearização do Irã está indo bem”. No entanto, fontes próximas às negociações contradisseram essa avaliação, indicando que o tema nuclear não foi tratado nas sessões técnicas realizadas em Doha. O vice-presidente JD Vance reconheceu que o assunto seria abordado em etapa posterior. Os negociadores dos dois países se reuniram separadamente com mediadores do Catar e do Paquistão, segundo o Ministério das Relações Exteriores catariano. Jared Kushner e o enviado Steve Witkoff, inicialmente anunciados pela Casa Branca para participar das conversas de “alto nível”, não estiveram presentes nas sessões, conforme relatou uma fonte sob condição de anonimato.

A situação no Estreito de Ormuz, rota por onde transitava cerca de um quinto do comércio global de petróleo e gás natural liquefeito antes do conflito, permanece instável. O tráfego foi parcialmente retomado, mas episódios de tensão persistem: no último fim de semana, os dois países trocaram ataques após um incidente com um navio de carga, e a mídia estatal iraniana noticiou nesta quarta-feira que uma embarcação estrangeira encalhou fora da rota designada pelas autoridades iranianas. Vandana Hari, fundadora da Vanda Insights, empresa especializada em análises do mercado de petróleo, afirmou que “o Estreito de Ormuz continua a ser reaberto, mas de forma irregular, imprevisível e não totalmente transparente”. Fontes iranianas seniores indicaram que Teerã busca reconhecimento internacional de seu controle sobre a via marítima e planeja cobrar pedágios do tráfego a partir de meados de agosto.

Os mercados de commodities reagiram às declarações de Trump, com os preços do petróleo recuando ao menor patamar em quatro meses. Analistas revisaram suas projeções de preço pela primeira vez desde o início do conflito, em fevereiro. No âmbito diplomático, países europeus manifestaram disposição de colaborar na remoção de minas no estreito, mas o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, declarou não esperar participação alemã na operação, citando a resistência iraniana em cooperar com terceiros.