Em análise publicada nesta semana, a jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, avalia que a decisão do governo Trump sobre a manutenção ou retirada da tarifa de 25% sobre exportações brasileiras está intimamente ligada a um impasse diplomático ocorrido em março, durante reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Yaoundé, capital de Camarões. Na ocasião, o Brasil foi o único país a resistir até o fim à renovação da moratória sobre tributação de transações do comércio eletrônico, vigente desde 1998, recusando uma proposta americana de extensão do período por quatro anos e contrariando a pressão de Washington.
Segundo a análise, a pressão dos EUA foi intensa e amplamente eficaz: o grupo de países menos desenvolvidos da África, Caribe e Ásia-Pacífico recuou, assim como a União Europeia e a Turquia, que havia acompanhado o Brasil até os momentos finais da negociação. A moratória é considerada estratégica pelas grandes empresas de tecnologia americanas, pois impede que governos utilizem a tributação do comércio digital como instrumento de financiamento de políticas públicas e desenvolvimento tecnológico próprio. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o representante comercial Jamieson Greer manifestaram publicamente sua insatisfação com o resultado da reunião.
De acordo com Fernandes, negociadores experientes interpretaram a posição brasileira, que propunha uma moratória de apenas dois anos em vez dos quatro oferecidos pelos EUA, como um sinal de que Brasília utilizaria o tema como moeda de troca nas negociações tarifárias bilaterais. Welber Barral, ex-árbitro da OMC, é citado na análise como tendo reconhecido que o Brasil dispõe de justificativas plausíveis para sua posição, entre elas o fato de que a regulamentação da inteligência artificial e a reforma tributária ainda estão em curso no Congresso Nacional.
Itamaraty e Ministério da Indústria e Comércio tratam como confidenciais os pontos das negociações bilaterais em curso com Greer, mas, segundo a colunista, um embaixador e um representante de empresas americanas no Brasil confirmaram a centralidade do tema comercial digital nas conversas. O governo brasileiro, conforme memorando enviado ao escritório comercial americano, aposta que os impactos econômicos das tarifas sobre consumidores e empresas dos próprios EUA venham a pesar no desfecho das negociações.
A análise também aborda a dimensão política doméstica do episódio, mencionando pesquisas qualitativas do projeto Democracia em Xeque, conduzidas por Beto Vasques e Esther Solano, que identificaram ruídos de desconfiança entre eleitores antes ligados ao bolsonarismo e hoje indefinidos em relação ao papel do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no contexto das negociações tarifárias. O desfecho do impasse comercial entre Brasil e Estados Unidos permanece em aberto, com audiências públicas em curso no escritório comercial americano.